domingo, 30 de julho de 2017

Um piano e um violoncelo




Um piano e um violoncelo


Davam-se as mãos,
carícias entretecidas, Vivaldi no início,
amanhando os sons,

deleitando-se, tranquilo, o tempo
no fresco da noite, apenas uma leve brisa
sem um ruído crepitado de vento...

Uma luz se apagara depois de se acender,
depois apenas ficara a primeira, a da pedra angular,
e aquela Luz que sempre arde sem se ver...

O movimento ali parara,
até o correr da fonte no centro dos claustros
por respeito se quedara...

E mãos se dando no silêncio
em sons, até a velha fonte, olhando, se quedara!...,
enchendo corações sedentos...

E ondas de mãos em início de noite, de fogo fora o dia,
lânguidas de um mar fresco se espraiando, dulcíssimas,
ou rompendo-se numa quase brusquidão, em harmonia...

Um cabelo aparado o dele,
o dela, também jovem, caído
sobre um negro de vestido...

E vénias breves
e
aplausos longos...

As ondas desprendidas da harmonia
daquele convento subindo aos templos no cume da cidade
irradiando lá pela lonjura na planície...

Olho, não ouço a fonte...
Um garoto, sentado, debaixo de um arco, mui atento...
Parece o enebriamento...


José Rodrigues Dias, 2017-07-30

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