segunda-feira, 31 de julho de 2017

Sonho de pescador




Sonho de pescador


À entrada da porta,
a Lua ao fundo sobre o mar,
descanso do barco...

As cores
de sal e Sol, e de suores,
e sabores...

Camisa arregaçada
descalço, calça puxada, ali sentado
e talvez já a bolinar...

Peixe na mão
cada dia a sonhar 
sendo seu pão...


José Rodrigues Dias, 2017-07-31

domingo, 30 de julho de 2017

Um piano e um violoncelo




Um piano e um violoncelo


Davam-se as mãos,
carícias entretecidas, Vivaldi no início,
amanhando os sons,

deleitando-se, tranquilo, o tempo
no fresco da noite, apenas uma leve brisa
sem um ruído crepitado de vento...

Uma luz se apagara depois de se acender,
depois apenas ficara a primeira, a da pedra angular,
e aquela Luz que sempre arde sem se ver...

O movimento ali parara,
até o correr da fonte no centro dos claustros
por respeito se quedara...

E mãos se dando no silêncio
em sons, até a velha fonte, olhando, se quedara!...,
enchendo corações sedentos...

E ondas de mãos em início de noite, de fogo fora o dia,
lânguidas de um mar fresco se espraiando, dulcíssimas,
ou rompendo-se numa quase brusquidão, em harmonia...

Um cabelo aparado o dele,
o dela, também jovem, caído
sobre um negro de vestido...

E vénias breves
e
aplausos longos...

As ondas desprendidas da harmonia
daquele convento subindo aos templos no cume da cidade
irradiando lá pela lonjura na planície...

Olho, não ouço a fonte...
Um garoto, sentado, debaixo de um arco, mui atento...
Parece o enebriamento...


José Rodrigues Dias, 2017-07-30

sábado, 29 de julho de 2017

Nem coração apertado




Nem coração apertado


Não há portão fechado
que não deixe 
passar, livres, as flores...

Nem coração apertado
que se feche
ao perfume de amores...


José Rodrigues Dias, 2017-07-29

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Árvores




(Hoje, a propósito do Dia Mundial da Conservação da Natureza).


Árvores


Estas são palavras escritas em folhas
De árvores que te pedi emprestadas,
Por novas serem ainda as árvores
Por mim plantadas.

Um dia, Poeta, a tua poesia verei
Em muitas folhas das árvores
Crescidas que te deixarei.

Então, ao ver-te,
Lá onde estiver,
Um doce sorriso sentirei
E em aragem de folhas
Em manhã primaveril
Te enviarei!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Miguel




Miguel

(Ter trabalho é ter riqueza)


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sol de fogo




Sol de fogo


Longe daqui o fogo
mas o Sol enredado em neblina negra
faz nele pensar logo...

E quem nos acode
de tanto negro
com que se morre?...

Mortes, o verde morre
e morre a mão
e o fruto já não se colhe...


José Rodrigues Dias, 2017-07-25

terça-feira, 25 de julho de 2017

Lembrando o Beato Salu, o Luís


Luís

Lembrando o Beato Salu, o Luís
(que reencontrei há poucos dias)


Salut, Salu!


Não sei de onde vieste e por que deixaste
Os caminhos por onde novo e outro andaste,
Se outro diferente foste noutros idos dias!
Sei que em caminhos que em Évora alisaste
Comigo sempre a andar longe e perto te cruzaste
Com um sorrido e certo “Olá, senhor Dias”!

Não sei quando o nome eu to disse
Ou como o nome tu certo o soubeste!
Do teu, no teu andar longe e perto,
Nunca o nome tu mo disseste,
Nunca do teu apelido me falaste,
Sempre Salu ficou incerto.

Não sei de onde vieste e por que deixaste
Os caminhos por onde novo e outro andaste,
Se outro diferente foste noutros idos dias!
Sei que pelos apertados carreiros da vida 
Em que se caminha da decisão não partilhaste.
Sabedoria a tua, que desta vida tu já sabias
E outras, muitas outras, cabeças não!

Não sei de onde vieste
E se outro diferente foste.
Sei que vais ficar, que já ficaste
Nas pedras polidas desta Cidade
Junto das outras Pedras vivas já sem idade!

Salut, Salu!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Carreiro de formiga





Carreiro de formiga


Grão a grão um montão,
passo a passo marcado o caminho,
verso a verso um poema...

E grão a grão
o caminho traçado
verso a verso...

No fim, um néctar de vinho,
bago a bago, uva a uva, cesto a cesto,
da luz maturado, em silêncio...


José Rodrigues Dias, 2017-07-24

Lembrando o Senhor do Adeus


Imagem da Net.



Lembrando o Senhor do Adeus...


José Rodrigues Dias, 2017-07-24

domingo, 23 de julho de 2017

Da luz um gole




Da luz um gole


Na luz tépida
a água brilha, pacífica,
mui tranquila...

Nada de vento
nem de lixo,
apenas silêncio...

Um peixe sobe 
e sorve 
da luz um gole...


José Rodrigues Dias, 2017-07-23


sábado, 22 de julho de 2017

Levitando, sei lá, cantando...





Levitando, sei lá, cantando...


Deitado de costas, tu flutuando,
Manta Rota, garotada à volta, in illo tempore, tu sabes...,
em ondas o teu corpo cantando...

Agora, perdido o pé, esta onda
se agigantando tanto,
o teu corpo de nós se afastando...

Levitando, sei lá, cantando,
por enquanto, com uma lágrima, um lenço, uma flor,
nós ainda em terra ficando...


José Rodrigues Dias, 2017-07-22

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Tempo teu que nos foi tão breve...


Prof. António Neto, in memoriam.
(Imagem no FB).


Tempo teu que nos foi tão breve...


Tempo teu que nos foi tão breve...
Marcos da passagem, de lutas, de partilhas...
Uma canção te embalando te leve!

Te embalando te leve
te deixando como em cante,
no ar um sorriso leve...


José Rodrigues Dias, 2017-07-21


http://www.uevora.pt/media_informacoes/noticias/(item)/22790

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Rua dos Mercadores




Rua dos Mercadores


Chegar e por esta rua ficar,
até um dia, ficando, mais abaixo e acima, e pelo meio,
e, hoje, regressar e lembrar...

Dormir, primeiro,
aprender e ensinar, fórmulas, números, depois, sempre,
bits, bytes, tantos...

As mãos dadas,
sim, também,
certa a passada...

E quanta lembrança boa...
Pedras... Não me lembro... Talvez as da calçada...
O caminho não foi à toa...


José Rodrigues Dias, 2017-07-11

terça-feira, 18 de julho de 2017

A luz vista




A luz vista


O que fazer do sexto livro de Poesia?
Que farei, que irei fazer?
Sim, o ponto de partida para o sétimo...


José Rodrigues Dias, 2017-07-18

Quase pranto




Quase pranto


Flores de um viço branco,
o aloendro desafiando o mar,
uma neblina, quase pranto...


José Rodrigues Dias, 2017-07-16

sábado, 15 de julho de 2017

Dalém e daquém-mar




Dalém e daquém-mar


Triste, fico a meditar,
chegam tristes as notícias
dalém e daquém-mar...

Que coisa esta,
que gente ainda somos,
que nos resta?!...

Em cada fala se fala de outra coisa,
chamas, armas sem tempo, vil o metal, inocentes, culpados,
tempo de uma coisa em cada loisa...

Que coisa,
que coisa resta?
Que coisa!


José Rodrigues Dias, 2017-07-13

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Xila


Imagem da Net.
A propósito da Revolução Francesa (hoje, 14 de Julho), 
do meu segundo livro.


Xila


Paris em Maio,
Revolução enfurecida levada impensada
De rua em praça e de praça em rua,
Tão dura e ingénua, tão pura e nua!

De andaime em andaime trepada, em bâtiment,
Mãe franzina, rija, exilada,
Mãe de criança em creche guardada,
Bandeira de sangue deixada no alto, posição bem marcada,
Bandeira por mãe franzina e rija em bâtiment içada,
Em Paris em Maio, bem no alto e bem desfraldada!

Com a terna criança em creche ao fundo,
A força imparável de novo futuro mundo
Em bandeira de sangue jorrado de esperança,
Em amanhecer em dia de fantasia e confiança!

Mares de multidões sempre a rugir,
Sem parar, sem pensar, sem ouvir,
Com marcas de selva de grupo a agir!

Companheiro sorvido em multidões em revoltados mares,
Quase só, sem quase em cama amar,
Com dispersos, loucos e gemidos amares,
Em andares com pouco dormir por muito andar,
Com pesadelos de tortura em mistura com sorriso liberto
De criança nascida de Homem Novo em outros doces ares!

Novos senhores do Mundo, em Maio, Companheiros sonhadores,
Estudantes que ensinam e trabalhadores que aprendem
Em Sorbonnes fechadas em Quartiers Latin em renascidas alvoradas.

Gritos em Nanterre, em bidonvilles, noutros, em outros lugares.

Marx, Lenine e Trotsky na ponta de línguas convictas,
Puras ou adulteradas, como armas usadas bem afiadas.

Em fuga de rua ou praça,
Pedras arrancadas em massa,
Rápidas balas arremessadas.

Organizações perdidas,
Desfeitas e refeitas ao sabor de cada revoltado mar,
Perdidas em ondas incontroladas,
Em movimentos de águas inesperadas,
Com controleiros e infiltrados desfeitos em nada,
Em cada onda de cada alterado mar!

Velhos sonhadores,
Companheiros,
Novos senhores,
Sonhadores!

Xila, voltavas?
Voltava, voltava!
Se voltava, Companheiros!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Poemas em tercetos - a contracapa



Poemas em tercetos
simétricos, diarísticos
(Janeiro a Março, 2017)


A contracapa do livro

Sexto livro de Poesia,
o primeiro em registo diarístico
(Janeiro a Março de 2017),
como se nova experiência
na passagem de fórmulas para versos…

Noventa e seis poemas,
duzentos e cinquenta e três tercetos
simétricos,
o segundo verso como eixo
(de uma simetria não métrica, 
geométrica aqui, perfeita ou quase,
diferente o olhar…).

Por publicar em papel,
quase tudo de um todo imenso,
diarístico,
dos anos de 2012 a 2016 (inclusive),
para além de alguns poemas anteriores,
 quase já perdidos…


José Rodrigues Dias, 2017-07-13

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Poemas em tercetos




Poemas em tercetos simétricos, diarísticos 
(Janeiro a Março, 2017)


A capa...
Livro de Poesia (próxima semana)...
O sexto...


José Rodrigues Dias, 2017-07-12

terça-feira, 11 de julho de 2017

Num relvado de jardim





Num relvado de jardim


Um jornal eu comprando 
e ele falando de armas fugidas
e esta ali se encontrando...

Velho talvez já demais
só empatando o canhão estaria
lá por aqueles arsenais...

Peça de guerra,
o velho canhão, ou lá o que é,
clamando: Paz!


José Rodrigues Dias, 2017-07-11

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Pombas e Paz




Pombas e Paz


Senhor, não fomos nós que nós não somos de guerra...
Vede, sem armas, a consciência leve, livre, as asas abertas...
Molhámos apenas o bico na fonte, nós somos de paz...


José Rodrigues Dias, 2017-07-07

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Cuidados mil, a porta trancada




Cuidados mil, a porta trancada


No ser e sentir a doença que grassa,
humana a condição, frágil, pobre, fragilizada,
por guichets, cadeiras, camas passa...

Uma porta de novo leve se abre
quando a coisa do mal se abate; quando não,
pesada porta em rosto se fecha...

Mil cuidados, a casa assaltada,
armas mil, vírus infiltrados, redes violadas,
cuidados mil, a porta trancada...


José Rodrigues Dias, 2017-07-06

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Janela larga




Janela larga


Ter uma janela larga,
bem rasgada,
o ar a poder circular...

Uma janela larga toda aberta,
largos os campos visuais, sem pontos negros, integrais,
luz do nascer ao pôr-do-sol...

Como as do Poeta,
umas nuvens que do sonho se vão movendo,
pedras no caminho...

Pedra após pedra,
subindo, a coisa lá em cima,
a crescer a escada...


José Rodrigues Dias, 2017-07-05