terça-feira, 21 de novembro de 2017

Do ser das palavras




Do ser das palavras


Sinto a amizade nas palavras
como em certos materiais
com que faço minhas aradas...

Não conheço carradas, montes de palavras
e delas um montão que já vi sem as ver me esqueci
como a tantos materiais que nunca conheci...

De extrema simpatia
certas palavras e materiais, moldam-se
ao correr de cada dia...

Umas são duras de guerra
como machados em luta de vida pela terra,
outras são flores de alegria...

Umas de dor só choram,
poucas morrem, algumas nascem,
umas de amor só cantam...

Umas calam-se
e caladas 
forte nos falam...

Sem a Palavra
falada ou calada
a Luz morreria...

Sem Palavra
a Luz
não nasceria...


José Rodrigues Dias, 2017-11-21

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Das mãos




Das mãos


Do trabalho manual moído o corpo,
não que o trabalho me canse, que não cansa,
distendo estas mãos pelas palavras...

Em toda a obra do trabalho
de mãos do passado feito beleza
também me alegro e liberto...

Porque mão
é pão
e construção...


José Rodrigues Dias, 2017-11-20

domingo, 19 de novembro de 2017

O burriquinho e o burrico




O burriquinho e o burrico


Tenho sede,
o burriquinho para o burrico,
tenho fome...

Espera mais um pouco,
o burrico sem palavras, deitado, o chão rapado,
a ver se o Sol se some...

A ver se chove
olha o céu, se há nuvens,
se o Sol morre...


José Rodrigues Dias, 2017-11-19

sábado, 18 de novembro de 2017

O todo em harmonia





O todo em harmonia


Janelas, olhos de ver, porte sóbrio de ser,
o todo em harmonia: construção erguida pelo homem
ou homem que a si mesmo se faz erguer...

Luz suave,
cores e tons que a moda não ousa mudar,
olhar suave...


José Rodrigues Dias, 2017-11-18


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Sobreiros




Sobreiros

Gostaria que os homens fossem como os sobreiros,
Nas agruras resistentes, sempre sóbrios, em solos ardentes.
Gostaria que os homens ao quarto de século fossem jovens adultos
Como os sobreiros, com a cortiça virgem tirada dos troncos
Pela primeira vez descortiçados por mestres tiradores
Sem machados a cortarem as raízes e a seiva do crescimento.
Gostaria que os homens nos sobreiros, então, se olhassem
E no espelho do céu se repensassem no seu tronco nú,
Com a casca rugosa superficial tirada, reduzidos à sua essência,
À seiva que lhes dá a vida pelas raízes na secura da terra conquistada.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros,
Em nova etapa, com a força retemperada e, nove anos passados,
De novo descascados por hábeis mestres descortiçadores,
Com precisão no corte para de novo não os magoar no seu ser
Nem os ofender no essencial do seu viver e crescer.
Gostaria, então, que os homens olhassem de novo os sobreiros,
Maiores, continuando sóbrios no seu porte, verdadeiros,
E sentissem como leve continua a ser a cortiça secundeira
Que vento fraco matinal de quase aragem leva ligeira.
De tronco nú, gostaria que os homens neles de novo se mirassem
E em imagem de futuro com eles se reiniciassem
E de novo, em nova etapa, se fortificassem.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros
E que um dia, depois, nove anos depois, vissem como teria
Finalmente, então, qualidade a cortiça amadia.
E de novo em tronco nú, despojados da sua superficialidade,
Reduzidos à sua essência, em nova etapa iniciada,
Com mais porte e mais seiva, maiores, verdadeiros,
Gostaria que os homens olhassem agora os adultos sobreiros,
Imponentes, agarrados mais ao solo, ainda mais sóbrios.
Gostaria, assim, que os homens fossem como os sobreiros,
Crescendo, dando-se ao cuidar de mestres, aos outros se dando,
Olhando-se no espelho do céu, almejando o brilho das estrelas,
Libertando-se do superficial, o essencial preservando,
Como os sobreiros, imponentes no ser do tempo,
Olhando do seu alto a pequenez dos pequeninos chaparros
E o abocanhar sôfrego dos porquinhos.
Gostaria, então, que os homens fossem como os sobreiros
E que vissem como é até leve a cortiça amadia
Que um vento mais forte como colorido trapo superficial
Para um longe escuro leva para sempre,
Num qualquer dia!

José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011, pp 69-71.


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José Rodrigues Dias, 2017-11-17

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Estrofe de uma Professora





Estrofe de uma Professora
 

No início era quase todo o verbo
por conhecer
e, então, eu em vós
e vós em mim,
juntos o fomos aprender…

Devagar, de mansinho,
sempre de mãos dadas a caminhar
na regra e na excepção,
soletrando a cantarolar
cada naco do verbo
e a contar cada pedacinho
e depois tudo somar
e multiplicar tudo por todos,  

lembrando-nos depois que podíamos dividir
o verbo por nós já aprendido
pelas meninas e meninos como vós
com fome do verbo
no tempo de aprender
por não haver
quem o possa com eles
em escola partilhar…

Sorte a nossa
que o verbo desde o início o tivemos
e todos na escola nos tivemos,

sorte a nossa
na nossa escola
sem ter de andar de olhos vazios à esmola
de um pequeno naco de verbo
que aqui desde o início inteiro nós tivemos…

Mas se inteiro o verbo desde o início o tivemos
nem todo nós o pudemos
conjugar…

Devagar, de mansinho,
desde cada um de vós ainda rapazinho
(menina ou menino,
vós sabeis,
somos todos iguais),
a soletrar e a cantarolar
(que a nossa vida,
também sabeis,
deve ser alegria),
a cantarolar
cada cantiga do verbo
para inteiro o poder amar…

E cada tempo ser um verso
e todos juntos sermos um dia na Terra
em humana harmonia
o Poema!
  
Mas hoje, passado este tempo,
rápido foi o tempo…,
sois agora
a primeira estrofe
escrita
que juntos escrevemos
do Poema!

A primeira estrofe
que já em voo
de mim se liberta,

sim, mas que eu, de mim,
apesar desta minha enorme pena,
e feliz!, vos digo: voai, sim!

2013-05-21


José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão, Ed. Forinfor, 2017

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José Rodrigues Dias, 2017-11-15

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Fotografia a preto e branco



 
Fotografia a preto e branco


Fá-la a preto e branco
como em osso a poesia,
colorida
não tem o charme de arte
nem a alma da vida
em taça de alquimia…

Tu o dizes, sem cor é o amor
que vem e logo parte,
que se parte
sem um arco-íris em tarde de dor,

só a preto e branco
como num velho interruptor
deixando preto o branco
e algumas sombras sem cor…

2014-07-02

José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 2015.

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José Rodrigues Dias, 2017-11-14

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Rei e o Aprendiz





O Rei e o Aprendiz


Chegando, o Rei a obra olhando, logo diz:
o muro vai nu, e olha que sei do nu de que falo...
Senhor, sim, não terminei, diz o Aprendiz...


José Rodrigues Dias, 2017-11-13

domingo, 12 de novembro de 2017

Da água





Da água


A água de tão escassa,
com as mãos em sua procura
a terra funda se escava...

Depois, macia a pele,
com cuidado o chão regado,
tudo nele logo medra...

Até a passarada
pela manhã volta a cantar, pão na mesa,
já dessedentada...

Cidade,
a sua cara
lavada...


José Rodrigues Dias, 2017-11-12

sábado, 11 de novembro de 2017

Braços abraçados




Braços abraçados


Ser que é não-ser busca a Luz,
ergue o olhar e os braços para o caminho, claro,
não as sombras, não as trevas...

Como guias de feijão-frade, fraternas,
braços abraçados, caminho em companhia,
num tempo outonal e primaveril o dia...


José Rodrigues Dias, 2017-11-11